• Joana Martins

A semana da amamentação




Esta semana celebra-se a Semana da Amamentação pela WABA (World Alliance for Breastfeeding Action). A WABA funciona como uma rede de apoio, protecção e promoção do aleitamento materno. Este ano decidiu fazê-lo através do slogan “ Empower parents, Enable breastfeeding”. A escolha desta estratégia é particularmente relevante: pretende promover o aleitamento materno através de políticas sociais igualitárias. Quando uma mãe amamenta, fá-lo inserida num contexto social (pessoal, familiar, profissional) que tem que promover, proteger, garantir que a mãe poderá fazê-lo. Isto é muito relevante: só desenvolvendo uma política igualitária de género neste processo se consegue espaço para as mulheres poderem amamentar.

Curiosamente, durante esta semana, o que vimos nas redes sociais é um pouco mais do mesmo...é (mais) fácil colocar uma foto romântica de uma mãe com ar enlevado/ beatífico a contemplar o seu bebé, enquanto ele se alimenta à mama.

Mas amamentar é tão mais do que isso!

É tão mais difícil: ninguém se lembra de colocar uma foto de uma mãe, madrugada fora, sentada à meia-luz, com um recém nascido nos braços, que chora ora porque tem fome, ora porque está desconfortável, ora porque o colocam no berço onde ele não quer estar, sem saber o que lhe fazer...ou uma foto de uma mãe com mamilos gretados, mamas endurecidas, com dor porque não suporta nem mais um minuto do bebé a mamar. E tem que mamar mínimo 10 minutos em cada mama? Sempre que tem fome? O que significa que, naquela(s) primeira(s) semana(s), pode muito bem ser de hora a hora? Como? Ou uma foto do frigorífico com folhas de couve fresquinha? Ou uma foto da parafernália dos mamilos de silicone, conchas protectoras, pomada castanha de lanolina, placas de hidrogel, bombas de extracção de leite?

E quando começam os palpites? Uma foto à nossa cara de incredulidade quando ouvimos: “O teu leite não é bom, não alimenta e o teu bebé tem fome...” E precisamente, como é que um comentário destes consegue ajudar?

E uma foto nossa, sem banho, com a cara amassada, maminhas ao leu para cicatrizar os mamilos, cicatriz de cesariana e o contínuo rosário negativista na cabeça: “ não sou capaz de fazer isto”, “não aguento mais”, “não sei o que fazer”,“ não sei o que o meu bebé precisa”...

E porque não uma foto de uma mãe, acabada de regressar ao trabalho, a tirar leite com bomba na casa de banho de serviço? Com medo de apoiar as mãos num sítio qualquer do cubículo. E quando está a tirar leite numa sala e alguém bate insistentemente à porta? É suposto ir abrir com a bomba ainda na mama? E uma mãe que anda de lancheira atrás, com packs de gelo para armazenar o leite que tirou? E uma foto aos atestados mensais de amamentação que algumas entidades patronais EXIGEM para permitirem que a mulher faça a redução de horário que a lei conserva como sendo o seu direito? E a mãe que regressa do trabalho e durante 1 hora tem que dar de mamar ao seu filho com 9 meses, antes de conseguir organizar o jantar? E o que lhe dizem? “Mas o teu filho ainda mama? Mas ele já tem dentes!”

Por isso, nesta semana em que se celebra a amamentação, vamos começar por dar os parabéns a todas as mulheres que o conseguiram fazer. Uma ovação de pé! Porque merecem! Não nos interessa que o tenham feito durante 2 semanas ou 2 anos! É irrelevante!

Mas não pintem a amamentação como um assunto feminino, porque não é! Porque para a mãe amamentar, alguém tem que se ocupar da roupa suja, da casa desarrumada, das refeições. Alguém tem que pôr as visitas inconvenientes na rua, alguém tem que passear os cães, alguém tem que comprar fruta e vegetais. Alguém tem que arranjar uns morangos para a mãe, de vez em quando, com chantilly!

Porque são precisos dois gâmetas (um feminino e um masculino) para gerar biologicamente uma criança, mas parece que a responsabilidade de tudo quanto diz respeito a esta criança diz respeito à mãe...e os pais escudam-se muitas vezes com a conversa “mas eu não posso dar de mamar e parece ser tudo o que o bebé quer” ou “o bebé só quer a mãe”...mas para o bebé estar em família, a família tem que estar disponível para ele. E para uma mãe amamentar, o pai tem que se ocupar do resto, a família tem que ajudar, o local de trabalho do pai tem que permitir que ele faça a sua licença parental sem limitações, sem ser em retalhos de 5 dias - porque assim é mais conveniente para o serviço - e o trabalho da mãe tem que permitir que ela pare para tirar leite, que tenha um local para o fazer onde não seja interrompida e que o possa armazenar. São tantas coisas!

Nesta semana, nós, na Zenped, temos um desejo simples: gostaríamos que todas as mulheres que queiram amamentar tenham precisamente o apoio que precisam para o fazer.

E isto já é muito!

É tudo!




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