• Joana Martins

Agendas demasiado preenchidas

-Clarinha, venha cá, e explique lá à doutora o que é que faz lá na escola?

A Clarinha, aterrada, olha-me com aqueles olhos que espelham o horror que uma criança de 3 anos tem de entabular conversa com adultos que não conhece.

Mas a avó, sem tréguas, avança:

- Ela faz ballet e biodança, está na natação, no judo, no inglês e este ano, vamos começar a equitação.

À parte de eu não saber ao certo o que é a biodança, fiz aquele ar que percebo imenso de todas as modalidades referidas. E sim, estamos a falar de uma minoria que consegue efectivamente financiar este manancial de actividades. Discursos políticos à parte, ainda bem para a Clarinha.

Ainda bem porque a Clarinha tem um quotidiano repleto de actividades que alguém organiza e estipulou para ela.

É sabido que aos 3 anos, dificilmente estarão a treina-la para os jogos olímpicos e que, por isso mesmo, estas actividades são mais brincadeira supervisionada por adultos do que outra coisa. Ainda assim, a Clarinha não tem a oportunidade de brincar como e quando bem quer e pior, raramente terá experimentado o tédio.

Quando meses depois, a Clarinha volta novamente à consulta, desta vez acompanhada pelo pai, que me expressa a sua preocupação com a Clarinha, porque ela é demasiado "apelativa" (AKA chata) e "não se entretém com nada", não posso deixar de reconhecer um padrão.

Com calma, olhei para o pai da Clarinha e perguntei:

-E quais são os momentos em que sente que a Clarinha é mais apelativa?

Ao que o pai, prontamente responde:

-Ao fim-de semana: ela quer brincar o tempo todo connosco. Obriga-nos a montar montes de coisas e depois não brinca com nada. Salta de uma brincadeira para a outra num frenesim!

- E durante a semana, quando ela faz: ballet-biodança-judo-inglês-natação-equitação, estão com ela?

A resposta, como imaginam é não. Os pais da Clarinha têm horários completos. Não conseguem acompanhar isto tudo. Não é que não queiram, ou não gostem, mas simplesmente, precisamente porque têm uma vida bastante preenchida, tentam encontrar actividades que a filha goste e que a possam ocupar.

Portanto, a Clarinha vive num mundo extraordinário onde há sempre qualquer coisa para fazer. Todas as tardes no colégio estão devidamente preenchidas e ao fim-de-semana, brinca um pouco com os pais, passeia e vê televisão. Não pára, portanto!

No total, quanto tempo terá a Clarinha para desarrumar os brinquedos que tem no quarto? ou mistura-los e inventar-lhes outras utilidades de brincadeira? Não tem.

O debate das crianças com agendas muito preenchidas já não é novo. Existem vários títulos (The over-scheduled child de Alvin Rosenfeld ou The pressured child de Michael Thompson) de diferentes especialistas nas áreas de psicologia e pedopsiquiatria. Nos últimos anos, no entanto, parece ter surgido uma contra-corrente, com a ideia que o sobre-agendamento não é mais do que um mito.

O que dizem precisamente os especialistas já citados sobre isso?

Por mais estranho que possa parecer, o mal não está nem no número, nem no tipo de actividades desde que (ATENÇÃO): as crianças tenham tempo para fazer os trabalhos de casa e PARA DORMIR (sobre recomendações de sono, ver o nosso post aqui).

Cumprindo estes 2 requisitos mínimos, temos que ponderar outros 2 aspectos: as crianças devem fazer actividades escolhidas por elas (e não pelos pais) e devem sentir-se entusiasmadas quando chega a hora H. Isto é muito relevante: se os vossos filhos vão a arrastar os pés e inventam doenças para não ir para a actividade, então deve estar na hora de deixar isso para trás.


E parece ser tudo...não? pois não...O mais importante parece ser a atitude dos pais! Aaaaaaahhhhh, pensavam que se escapavam?

Como é que é isto?

Os pais devem tentar participar destas actividades...pode não ser sempre, mas manifestem interesse e acompanhem-nos nos momentos-chave. Mas sobretudo não podem, nem devem, exigir determinados resultados. Lá porque o vosso filho não demonstra apetência para ser um Michael Phelps na piscina ou a vossa filhota é gorducha e nitidamente pouco destinada a ser bailarina principal, não quer dizer que as crianças não se divirtam. E não vale a pena humilha-los com a conversa: " eu estou a pagar para ires para o andebol e estás sempre no banco"...Isso não!

Foquem-se no essencial: os miúdos gostam, estão felizes, estão a mexer-se? óptimo! Podem ser uns aselhas, mas qual é o mal? Nem todos podemos ser violinistas profissionais, mas faz todo o sentido, havendo possibilidade económica para tal, experimentar vários caminhos!


Por fim, gostaríamos de salientar a importância do tédio. Num artigo publicado em Fevereiro deste ano no New York Times (ver aqui) o tédio pode ser efectivamente uma estratégia para fazer aumentar a auto-suficiência e a criatividade. Por muito que possamos argumentar que a melhor coisa que podemos fazer pelos miúdos é dar-lhes mundo, se calhar também temos que nos concentrar em dar-lhes raízes: refeições em família, férias nas casas da aldeia dos avós onde a TV só tem 6 canais (viva o TDT ), a rede é uma bosta (sem netflix muah-ah-ah) e tudo consegue ser encarado com uma neura.

Por isso é que não há fórmulas certas, nem uma única forma de fazer esta coisa que se chama paternidade.


Quanto à Clarinha, escolheu desistir do ballet e da biodança, deixou o judo e pediu para fazer mais uma sessão de equitação. Os pais ficaram de acompanhar uma actividade por semana e brincar com ela todos os dias durante 20 minutos. Foi a prescrição mais fácil que alguma vez fiz.

Se resultou? Não foi logo! (nunca é) mas, de acordo com o pai, já nota melhorias: "ela já se entretém um pouco, mas continua a querer que brinquemos com ela."

Pois. Eu ficaria preocupada se ela não quisesse.

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