• Joana Martins

Para os braços da minha mãe



Ontém a @gennyspc enviou-me um parágrafo do livro “Os bebés também querem dormir” da Constança Cordeiro Ferreira (ver aqui), que fala especificamente do desconhecido que antecede o nascimento de um bebé. O bebé nunca viveu sem a mãe. Não sabe o que é estar sozinho, o que é ter frio, calor, falta de embalo, fome ou sentir a barriga a mexer.

E este parágrafo, que para ela foi tão importante, porque a alertou para a necessidade de estar presente para a sua pequena filha de 7 semanas, fez-me recordar um momento particularmente doloroso da minha vida.

Quando fiquei grávida, à parte do espanto e do pânico que senti face à responsabilidade avassaladora que iria assumir, nunca me demorei a pensar muito sobre o parto. Era uma inevitabilidade, claro. Mas não queria pensar nisso. Como pediatra que sou, pensei na possibilidade de uma complicação com o bebé. Mas achei que iria sair do processo exausta, modificada, dorida, mas relativamente inteira. Ter uma atonia com inversão uterina não estava exactamente nos meus planos. Nem nos de ninguém, a bem dizer.

O que aconteceu foi que, no rescaldo do parto, quando finalmente o bebé fica ao nosso colo, as coisas complicaram-se. Uma dor intensa, agonizante atingiu-me. A tal ponto que fiquei agitada e pouco colaborante. Mas, saltando uma série de detalhes sórdidos e fazendo agora como nos filmes: corta e acorda passado umas horas numa cama desconhecida, sem saber o que se tinha passado. Quando acordei percebi que não tinha o bebé comigo. Mas que estava tudo bem com ele. O que eu não sabia é que iria ficar sem o meu filho durante 5 dias inteirinhos.

Os primeiros cinco dias do meu filho Sebastião.

O meu primeiro filho.

Ele estava sozinho, num berço, no meio da unidade da neonatologia, sem patologia nenhuma, a beber biberão e a chorar de medo o tempo todo. Estava à minha espera, claro. Porque eu não podia tomar conta dele. Cinco dias inteiros.

Fez-me uma visita à unidade onde eu estava, de noite, para ninguém saber, porque é nitidamente contra as medidas de controlo de infecção hospitalar.

Veio com uma enfermeira, no seu bercinho transparente, para eu finalmente o conhecer, agora sem dor. Quando entrou na unidade, na radio, que estava sempre ligada, soava o “ Para os braços da minha mãe” do Pedro Abrunhosa. Um acaso arrasador. Eu chorava baba e ranho, sem controlo, de boca aberta, a soluçar, as enfermeiras choravam, o Sebastião, mais sábio que todas nós, dormia calmamente. E no seu sono, libertou um pequeno suspiro de reconhecimento.

Com isto quero partilhar convosco a dor que se sente por não ter estado lá: por receber novidades do nosso filho por toda a gente e não saber. As pessoas, sem sensibilidade para esta situação, espraiavam-se a falar de como o Sebastião mamava, que tinham dado biberão, que tinham dado colo, que tinham mudado a fralda. Tudo coisas que eu, a mãe, não pude fazer. Não é lógico, mas causava-me uma mágoa inexplicável.

E a alegria toda à nossa volta, celebrando o nascimento de uma criança e nem um piscar de olhos ao pequeno facto de eu me ter atrapalhado seriamente e ter precisado de mãos sábias e empenho profissional para me manter viva?

E se as mães não doentes sentem que passam para um segundo plano com o nascimento do bebé, imaginem só uma mãe doente! Parecia uma cena medieval: o patriarcado todo contente com o nascimento de um pequeno macho -o primogénito- e a mãe, also known as parideira, devia expressar alegria beatífica, felicidade e agradecimento por estar viva.

Como devem imaginar, não foi um momento fácil. E com isto estou deliberadamente a fazer o maior eufemismo da minha vida.

Sei que, para cada mãe, há pelo menos uma história de parto. E apesar de ser um processo universal, cada mulher cria as suas expectativas, vive a sua experiência e processa-a como pode.

Mas para aquelas mães, que como eu, foram separadas dos seus bebés por motivos de saúde materna (o capítulo dos bebés doentes é toooodo um outro contexto, bem mais complicado, na verdade...mas que felizmente não consigo endereçar no papel de testemunha), tenham paciência, mas não digam frases como “ deixa lá, filha, já passou...agora tens aqui um bebé para cuidar...” e, por favor, mesmo que tenham pegado no menino ao colo, levado com bolsado, mudado o cocó e dado 3 banhos, calem-se. Digam que o bebé está bem, que é lindo, que vai ficar tudo bem.

Mas não se ponham a descrever coisas que, se o universo estivesse no seu lugar, a mãe seria a primeira pessoa a saber.

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