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  • Joana Martins

Quando os nossos filhos não dormem



Era um domingo solarengo quando finalmente conseguimos reunir-nos com uns velhos amigos. Nós temos 2 meninos, de 1 e 3 anos. Eles têm uma menina de 5 anos e um menino de 1 ano e meio. Sei o que estão a pensar e sim, confirma-se: completo caos! “Nós estamos num túnel”, disse-me o Luís, o marido da minha amiga Joaninha. Sendo um homem de alguma razoabilidade, esta afirmação soou-me simultaneamente chocante e estranhamente familiar.

Sim, é isso. Estamos num túnel.


O túnel dos primeiros anos das crianças, em que a supressão de sono chega a ser tão intensa que tudo se funde. Parecem-nos anos esborratados, num contínuo de rotinas, uma roda-viva de choro, fraldas, refeições, comida no chão, brinquedos por arrumar. E gritos, muitos gritos. Sim, existem muitas gargalhadas, colinhos, miminhos, cheiros absolutamente deliciosos, proximidades inexplicáveis e comunicação para além das palavras. Existe isso tudo, o que torna a maternidade (e paternidade) sustentáveis. Mas, existe um MAS. Li recentemente o artigo de opinião do Eduardo Sá no Observador (ver aqui), sobre o número crescente de artigos que reflectem o lado mau da maternidade, apelidando-os de apologia da “maternidade moderna”. Fiquei descontente: como se, por termos levantado um pouco o véu e nos recusarmos a varrer para debaixo do tapete as partes más da maternidade, estivéssemos a ser “demasiado modernas” e com isto ameaçássemos a vinculação com o nosso bebé. Mais do mesmo, portanto. Se és mãe, não te queixes. Tens que ter paciência e encarnar a abnegação em pessoa. Para o bem de todos, mas sobretudo para o bem da sociedade que não quer reconhecer que as mães estão cansadas e precisam de ajuda e condições para ser ajudadas. Mas para este não ser mais um artigo de opinião, gostava de vos trazer um pouco da ciência sobre o cansaço (mais sobre burnout parental, ler aqui).

Existe este estudo sobre o efeito da privação de sono dos pais, durante gravidez, pós-parto e primeira infância dos seus filhos. Os resultados são esmagadores: depois de entrevistarem 2541 mães e 2118 pais, concluíram que existe de facto um túnel. A privação de sono instala-se no último trimestre de gravidez, que por motivos de ordem física, hormonal e psicológica, dificulta o sono da futura mãe. O pior momento da privação de sono coincide com os três meses do bebé. Compreende-se: a adrenalina e o cortisol já se esgotaram, as mães e pais já não têm reservas funcionais e o bebé continua a precisar de ser alimentado em contínuo.


E sabem quanto tempo dura?

Preparem-se, aqui vai: 6 anos!

Ou seja, apenas 6 anos após o nascimento da criança, os pais voltam a reportar alguma sensação de reposição de sono. Isto é uma enormidade. Pior: agora imaginem o efeito de múltiplos filhos. Sabemos que, nos dias de hoje, nas sociedades ditas ocidentais, a procriação é uma opção. Existem excepções, claro, mas globalmente as pessoas têm filhos porque querem. Curiosamente, esta frase sintetiza muito bem a comichão que estas conversas fazem junto das entidades empregadoras:“ tens filhos pequenos e andas absolutamente exausto? Pois...mas tu quiseste ter filhos...” E isto é tão duro de se ouvir. No meio do túnel, sentir que não existe uma compreensão, nem uma forma de gestão laboral que nos permita ter mais flexibilidade. Quem é que consegue trabalhar bem se passou a noite com o miúdo constipado ao colo?

Tinha 32 anos quando nasceu o Sebastião e nada, nada, me poderia preparar para a avalanche de privação de sono. Ele tem 3 anos e meio e acorda múltiplas vezes TODAS AS NOITES. E sim, adormece sozinho, na sua caminha, e fazemos todas as medidas de higiene de sono...Mas nada resolve o problema. A cada ciclo de sono, não só desperta, como desperta aos gritos. Nada me preparou para isto. Por muito boa mãe que eu tente ser, por muito bom pai que o pai tente ser, o efeito da privação de sono é esmagador. Não sabemos o que é dormir uma noite há mais de 3 anos. O que dizem familiares e amigos? “ É normal que estejas cansada”, “ sim, os miú

dos são complicados” ou o pouco empático “tens que ter paciência”. E não nos levem a mal. Nós temos. Mas se calhar é preciso mais do que paciência. Se calhar são precisas leis que protejam os pais de crianças pequenas. Que lhes dêem direito a flexibilidade de horário, que lhes permitam mais dias de licença sem penalização do rendimento em caso de doença dos filhos, que lhe facultem dias de férias extra, mesmo que sem o mesmo pagamento. Alguma coisa, alguma coisa que nos faça encarar a “maternidade moderna” com mais optimismo.





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