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  • Joana Martins

Sôia di Africa




Há coisas que não se esquecem… Alguma vez viram alguém escanzelado e no entanto inchado de cima a abaixo? Eu já. Oito anos, corpo com uns frágeis dezassete quilos, pele negra, olhos que não viam. O Jerciley era o menino querido das mães da enfermaria e por isso era com compaixão que o ajudavam sempre que necessário. E era sempre tão educado. Tão educado e tão sozinho. Ouvi falar dele porque, além da magreza extrema e da cegueira, estava como que abandonado no hospital, ficava dia e noite sozinho naquela enfermaria partilhada, pai e mãe sabe-se lá onde… Comecei a ir visitá-lo, devagarinho para lhe ganhar a confiança. Falava com ele num género de monólogo pontuado por um monossílabo da parte dele aqui e ali. Levava-o para o alpendre, sentava-o ao meu colo e oferecia-lhe um iogurte de que tanto gostava - sempre de banana, porque a escolha não era muita. Descobri pouco depois que já tinha sido observado pela missão médica de Oftalmologia (diversas vezes até!) mas que a sua condição física o impedia sempre de ser aprovado para a cirurgia das cataratas que lhe toldavam os olhos - aquela constituição débil certamente não iria resistir à anestesia. 

Tal como aconteceu aquelas mães, também fui conquistada por ele, seduzida por aquela tristeza sem fim do seu olhar. Tudo o que queria era aliviar um pouco a dureza do seu dia-a-dia, mais uma vez passado sozinho, mesmo antes de ir para o hospital, pois aqueles olhos enevoados não permitiam que caminhasse os longos quilómetros até à escola e aliás nenhum dos professores sabia o que fazer com uma criança que não enxergava as letras ou números escritos na ardósia grande lá da frente. Calhou que durante esse período se festejou o 1 de Junho e, depois da festinha no hospital, decidi que era naquele dia que o ia arrancar (por breves instantes, eu sei), peguei nele, vesti-lhe um top dos meus (com uns nós desengonçados para não lhe cair) e juntos fomos à festa da Escola Patrice Lumbá. Nem vos consigo descrever os olhares de que ele, e eu indirectamente, fomos alvo - agora que o inchaço já o tinha deixado, ninguém se aproximava, o medo da doença chapada nas suas caras. Apesar de manter o semblante triste, caladinho que nem um rato, gosto de pensar que se terá divertido, a ouvir música e comer bolo. 

Não sei se foi exactamente nesse dia que tomei a decisão, mas matutei muito em como o poderia ajudar: para conseguir ir à escola teria de recuperar a visão, para recuperar a visão teria de ser operado, para ser operado teria de ser aprovado pela equipa de anestesia e para ser aprovado pela equipa de anestesia teria de adquirir um nível nutricional muito acima da desnutrição grave que apresentava. Desencantei recursos sabe-se lá de onde, pedi ajuda ao meu grupo de amigos e, por fim, com a necessária autorização da mãe (pai? que pai?) encontrei a solução possível: o Jerciley foi viver com uma família com quem travei conhecimento (a senhora desempregada, pelo que até lhe davam jeito os trocos extra) para ser bem cuidado, ter uma alimentação saudável e (figas) conseguir ser aprovado para a cirurgia quando a equipa de oftalmologia voltasse no ano seguinte. Ufa, que alívio! Já conseguia ver a luz ao fundo do túnel, comprido, é certo, mas devagar devagarinho lá chegaríamos.

Foi o cabo dos trabalhos conseguir boleia para ir buscar o meu amiguinho quando, menos de 1 semana depois, a senhora me liga a contar que aquele menino frágil estava novamente a ser castigado - uma diarreia persistente nos últimos 2 dias, com inúmeras dejecções por dia, sem conseguir ingerir nada, apenas água e mesmo assim pouca. Desidratado e muito fraco, teve de ficar internado novamente no hospital… Uma semana de martírio, dias passados a correr para o mais parecido com um WC que lá havia (sem água corrente) porque um menino daquela idade já não quer usar fralda, sonos curtos e agitados, inúmeras picadas, uma ocasião em que, abraço por mim, me disse “eu não aguento! eu não aguento, eu vou morrer...”. E assim foi. Depois de uma vida tão dura, de sobreviver a tantos obstáculos e tanta coisa má, quando tudo parecia já ter solução, morre. De algo tão estúpido e corriqueiro como uma diarreia. Vida injusta, morte injusta.

A mãe de uma amiga deu-me a mão e juntas lavamo-lo e vestimo-lo (roupa nova, que ainda nem tinha tido oportunidade de lhe dar); ele foi para a casa mortuária, eu fui para minha casa chorar. Mandei avisar a família do sucedido - o padrasto apareceu dias depois, a mãe nem se deu ao trabalho (“tinha muita roupa para lavar”). E na certidão, a data de nascimento: afinal, tinha 11 anos. Há coisas que não se esquecem…

MPG


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