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  • Joana Martins

sobre a maternidade

Ou reflexões vagamente heréticas sobre o presépio


O Natal serve para nos reunirmos. Para estar presente. É curioso como celebramos o nascimento de uma criança ( Deus ou deus, Homem ou homem, de acordo com o credo de cada um) que teve lugar há 2000 anos, num local remoto, na Palestina.

Jesus era filho de refugiados por perseguição política. E a gravidez estava intrinsecamente relacionada com o motivo da fuga: era justamente o que os colocava em perigo. Perigo de perder aquele bebé assim que nascesse. Estando em fuga, foram surpreendidos pelo trabalho de parto de Maria e tiveram que pernoitar num sítio que os recebesse. Foi num estábulo.

Até que ponto esta narrativa tão profundamente conhecida de todos nós, influencia a percepção que temos do papel de mãe. A Virgem Maria foi a mãe perfeita: abnegada, virtuosa, livre do pecado original, piedosa, presente. Imaginem só o que é estar em trabalho de parto montada na garupa de um jumento. Imaginem Maria, exausta, redonda, cheia de contracções, empoleirada num burrinho periclitante, a percorrer ruas, ruelas, caminhos, em busca de um local onde pudesse repousar. E imaginem o que é chegar finalmente ao único espaço disponível, um estábulo, para ter a criança. A palha por todo o lado, os animais irrequietos com os gritos de dor da parturiente (convenhamos que, se calhar, a virgem Maria dilatou no mais absoluto e intenso silêncio), o frio e a longa noite a priva-los de luz.

Ter um bebé num estábulo, com a ajuda de um marido bondoso, bem intencionado mas desconhecedor, sem epidural e ainda para mais, à luz das velas, é obra. É A OBRA, que dita a pauta para todos os partos desde então. Agora, sendo a narrativa nitidamente esburacada de imprecisões, há um aspecto que me perturba particularmente. Já repararam na representação do presépio? A Virgem Maria está frequentemente em pé, ou mais frequentemente ainda, de joelhos em adoração d'O menino.

Isto é a prova provada, provadinha (como se fosse necessária), que a ideia, configuração, distribuição das imagens do presépio foram e são construídas por alguém que nunca, nunca, NUNCA, terá passado pelo trabalho de parto.

Já não bastava a dor sem alívio, a falta de ajuda conhecedora, a falta de higiene (nem falo de assépsia num estábulo), o frio e a escuridão da noite natural, ainda temos que a desgraçada da Virgem Maria, assim que acabou de parir teve que se colocar de joelhos em prostrada adoração do Seu filho recém-nascido.


Falava precisamente sobre a idealização do papel materno com uma grávida do primeiro filho no dia de ontém, em família. E foi a olhar para ela, nitidamente cansada, pouco animada pelo seu actual tamanho, pelas dores de costas, pelo sono, pelas náuseas, pela dor no peito que de um dia para outro, se lembrou de triplicar de dimensões, que me apercebi que mais do que tudo isto, o que apoquenta qualquer mulher que não se sente em estado de graça quando está grávida, é a culpa. Uma culpa terrível por sentir que, por não ser abnegada e por não se sentir humildemente agradecida por ter hemorróidas, isso só pode significar que é má mãe, distante, fria, sem instinto e, na pior das hipóteses, que não merece sequer esse filho que vem aí.

E é essa culpa que pretendo endereçar. Cada mulher grávida debate-se com assuntos muito delicados: debate-se com a expectativa pessoal sobre a maternidade, largamente apoiada na sua experiência (boa ou má) enquanto filha, debate-se com a expectativa social da maternidade (e aqui, claramente, na cultura judaico-cristã, esta imagem de total devoção materna e constante sublimação de sofrimento em prol do outro), debate-se com a expectativa relacional com o parceiro e com a integração do novo estatuto no seio de uma família mais alargada. E são todas estas expectativas que tornam a mulher grávida particularmente vulnerável a todos os eventos que a rodeiam. Não é fragilidade, não são hormonas, não são choros e debilidades à toa. Não. Estar grávida é um momento de grande transparência da mulher, em que assume que é o seu objectivo ser mãe, ainda que se encontre às escuras, insegura, sem saber como será o seu bebé, sem saber como será ser mãe, com medo de falhar e sobretudo sentindo-se culpada por não se sentir confiante, nem optimista, nem em controlo como uma boa mãe deveria estar.

Não sei se servirá de muito, mas pessoalmente ajuda-me pensar que a Virgem Maria não estaria totalmente calma e optimista naquela noite fria e escura, há 2000 anos atrás em que, cheia de contracções, tentava encontrar um sítio para ter o bebé. Credos, ideias, orações, religiões à parte. Não sei, a ideia da Virgem ou de uma qualquer mulher que nestas condições, se encontre agora a atravessar o Mediterrâneo num barco de borracha. Ou a ideia de uma mulher deitada na esteira a parir sozinha. Ou de uma mulher sozinha, na noite, sem conseguir amamentar o filho. Todas estas ideias conseguem fazer-me aceitar que há mistérios muito maiores do que o medo, a culpa ou a vergonha. Existe vida e existe uma mãe. Boa ou má, não sabemos. Mas existe uma mãe. E isso sim, consegue relativizar as minhas inseguranças.


(Dedicado à Ana Luísa, que vai ser mãe).