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  • Joana Martins

Sobre o eczema atópico

“Mas então, isto quer dizer que o Martim vai ter sempre a pele assim?” perguntou a Tânia, com os olhos muito redondos de espanto.


Mas isso não existe. E porquê? O eczema atópico ou dermatite atópica é um problema crónico. Tem origem num estado inflamatório permanente da pele, frequentemente de causa alérgica não conhecida, que de forma marcada e permanente compromete a função cutânea de barreira, ao diminuir a presença de ceramidas (gordura natural) do estrato córneo da pele.

Não é de todo uma doença contagiosa e tem uma grande componente hereditária, ao ponto de, se ambos os pais tiverem antecedentes pessoais de dermatite atópica, o risco da criança sair aos seus é estimado em 80%.

Sendo o problema cutâneo mais comum em idade pediátrica, afectando 10 a 20% de todas as crianças, surge, em 65% dos casos, antes de 1 ano de idade. Felizmente, uma parte considerável dos casos sofre uma melhoria progressiva, com a dermatite atópica a afectar apenas 2% dos adultos. Este fenómeno de melhoria tem habitualmente lugar antes dos 4 anos de idade e frequentemente associada ao desenvolvimento de outros sintomas de doença alérgica, numa ocorrência que se chama de marcha atópica. O bebé com dermatite atópica, acaba por ter melhoras significativas da pele, mas desenvolve sintomas de rinite alérgica, podendo eventualmente vir a desenvolver algumas crises de asma.

E é isso que tenho que explicar sempre aos pais: que é uma doença crónica, alérgica sem conseguirmos identificar ao certo a causa de alergia (existem, obviamente excepções a esta situação), que vai tendencialmente melhorar e que está associada a uma história familiar da mesma doença.

Mas então, quais são os sintomas principais? A dermatite atópica tem como sinal cardinal a comichão. As crianças coçam-se e ao fazê-lo acabam por lesar mais a pele, num mecanismo que agrava ainda mais a comichão, num ciclo difícil de controlar.

Para além da comichão, a pele é frequentemente seca, irritativa, descamativa e com áreas mais afectadas que, sendo alvo de muita coceira, acabam por ficar vermelhas e irritadas.

E esta é uma questão importante, porque nas crianças com dermatite atópica, as lesões aparecem frequentemente na face e no couro cabeludo (nos bebés), na região das pregas cutâneas (atrás das orelhas, na prega dos braços, atrás dos joelhos), nos joelhos e nos cotovelos, nas crianças mais crescidas. Nos adolescentes e adultos, frequentemente envolvem a região palpebral, as mãos e os pés.

E que cuidados os pais deverão ter com as crianças com dermatite atópica?

É fundamental uma boa higiene da pele, no entanto, como já referi, a pele inflamada tem menor capacidade de barreira e submetê-la a contacto permamente e prolongado com a água acaba por ter um efeito negativo. Assim, os banhos deverão ser curtos (5-10minutos), com água menos quente possível e com produtos de higiene adequados (sem sabões e sem fragâncias associadas). Depois do banho, é muito importante não friccionar a pele com a toalha de forma muito enérgica, porque esse é um factor muito contributivo para a comichão. Nas crianças com dermatite atópica mais severa, poderá ser aconselhado não fazer banhos diários, porque de alguma forma, o excessivo contacto com a água acaba por ser prejudicial para a pele.

Depois do banho é muito importante hidratar a pele estando ela ainda húmida e para isso deveremos escolher produtos adequados para a pele atópica. É muito simples: existem no mercado diversas alternativas para o efeito, sem perfumes, sem alergénios e alguns cremes até com substâncias que permitem controlar a comichão.

A hidratação da pele nas crianças (e adultos) com pele atópica é tão relevante, que muitas vezes referimos a importancia de ser feita duas vezes ao dia.

Porque sabemos que é mantendo a pele devidamente limpa e hidratada que podemos tentar evitar agravamentos súbitos da inflamação crónica da pele.

Outro factor determinante é evitar agentes irritativos e para isso é conveniente que as unhas destas crianças sejam cortadas rentes e limadas, que usem roupas em contacto directo com a pele cuja constituição seja 100% algodão, que os pais tirem as etiquetas da roupa porque são um elemento de fricção e de agravamento da comichão, que os pais escolham detergentes de roupa sem cheiros e idealmente desenhados para peles sensíveis e que, quando possível, utilizem a opção de enxaguamento mais prolongado das máquinas de lavar roupa (para remover mais profundamente os restos de detergente na roupa).

Por isso, os cuidados com a dermatite atópica deverão ser constantes e não há realmente um creme milagroso que consiga resolver tudo para sempre.

Existem os cremes de controlo da doença (cremes hidratantes para pele atópica, já abordados) e existem cremes de tratamento dos episódios de agravamento (frequentemente corticoides tópicos) sob prescrição médica.

Adicionalmente, em casos severos, pode ser necessário instituir tratamento sistémico com imunomoduladores, como os corticoides, antibióticos em casos de infecção secundária ou anti-histamínicos, para controlo da comichão.

Por isso, quando a Tânia me perguntou se o Martim teria aquela pele sensível para sempre, tive que lhe responder que sim: que embora fosse possível que viesse a melhorar, a verdade é que alguns adultos mantêm o problema. Mas expliquei-lhe também que hoje em dia temos muitas estratégias para intervir na inflamação da pele destas crianças, prevenindo os episódios de agravamento e melhorando a sua qualidade de vida.


JM