• Joana Martins

Tecnoferência: o que é?




Começar um texto com uma palavra meio esquisita e uma questão é logo meio caminho andado para ninguém querer saber deste assunto.


Mas não temam! É uma palavra esquisita que descreve um fenómeno que TODAS NÓS já experimentámos: é quando qualquer dispositivo digital (TV, computador, telemóvel ou tablet) interfere com a nossa rotina diária. Isto não é novidade para ninguém, porque actualmente estima-se que em média os adultos passam 9 horas por dia em contacto com um dispositivo digital, sendo que 30% (3 horas por dia) são dispendidas no telemóvel!

A primeira vez que se falou sobre isso foi nos idos anos 2000 (quase a fazer 20 anos...): os dispositivos digitais estabelecem-se como fonte de frustração, conflito, conversas mais superficiais e menos empatia nas relações entre adultos.

Pouco tempo depois começam a surgir os primeiros estudos sobre a interferência dos dispositivos digitais nas relações amorosas, com a constatação do óbvio: casais com relato de maior interferência relatam maior insatisfação, menos empatia e menos intimidade. Nos elementos do casal mais inseguros, o fenómeno de tecnoferência é uma grande fonte de angústia, ciúme e medo de perder o parceiro.

No início desta década, surgem os primeiros estudos sobre a tecnoferência no meio familiar: ao início sobre o ângulo do equilíbrio entre a família e o trabalho, mas com a crescente evidência que o uso de tecnologias no ambiente familiar aumenta o stress do utilizador e a sensação de indisponibilidade nos outros membros da família.

Por fim, ao fim de praticamente 20 anos desde as primeiras análises, surgem os primeiros estudos sobre o impacto do uso de tecnologia digital no comportamento das crianças.

Neste tema destacam-se dois investigadores norte-americanos, Brandon McDaniel da Universidade do Illinois e Jenny Radesky da Universidade de Ann Arbor, no Michigan.

A última foi responsável por um estudo observacional maravilhoso sobre o uso de telemóvel pelos pais, durante o almoço, num restaurante de fast food. O estudo teve uma repercussão cataclísmica e foi publicado no Pediatrics: os pais, com a atenção dividida entre os filhos e o telemóvel, eram mais hostis às chamadas de atenção dos filhos, que necessariamente escalavam, com menor numero de interacções e diminuição da conversa.

Então, o que é que se sabe até ao momento:

O uso de tecnologia e percepção de tecnoferência tem impactos diferentes se vier da mãe ou do pai.

Os pais admitem 2 vezes mais tecnoferência do que as mães , mas é sobretudo através da exposição das crianças aos meios tecnológicos, com um aumento significativo das horas de exposição a um ecrã.

Já as mães, mais conscienciosas do tempo das crianças em frente a um ecrã, são sobretudo responsáveis pela tecnoferência através da sua própria utilização de tecnologia.

Resumindo: os pais põem os filhos em frente ao ecrã e as mães olham elas próprias para o ecrã.

E que ecrã? Em cada contexto familiar, são habitualmente 2 os responsáveis pela tecnoferência: falamos da TV e dos telemóveis, sendo que, pelas suas características de portabilidade, os telemóveis têm um impacto mais evidente.

E qual é o impacto do uso de telemóveis no contexto familiar?

Podemos decompor esta pergunta em duas perguntas: Qual é o impacto do uso de telemóveis sobre as crianças e qual o impacto do uso de tecnologia na relação parental entre os pais.

O que sabemos até agora é que a noção de tecnoferência se associa de forma bidireccional com alteração do comportamento das crianças: quer comportamentos de interiorização – amuos, isolamento e ansiedade; quer comportamentos de exteriorização – birras, oposição e gritos, muitos gritos.

E aqui, é bastante diferente a forma como as crianças modelam o seu comportamento: com os pais revelam mais amuos e isolamento. Com as mães, escalam para comportamentos mais exuberantes como as birras.

O que os investigadores não sabem ainda explicar é exactamente o que é o ovo e o que é a galinha, vejamos: se são os comportamentos de tecnoferência, que fazem diminuir a atenção dos pais para com as crianças e como tal, uma menor percepção das suas necessidades que eventualmente leva à explosão dos miúdos OU se são os miúdos com comportamentos mais complicados, que geram mais stress parental, que levam as mães (e os pais) a olharem de vez em quando para o telemóvel para aliviar a carga da parentalidade.

Sim, porque o comportamento de consultar o telemóvel durante aqueles momentos de marcado tédio ou solidão que caracterizam, por exemplo, os primeiros meses de licença parental, podem ser encarados como um mecanismo de fuga ao stress (questionável, bem sei, mas são conhecidos os efeitos de secreção de dopamina no cérebro nos utilizadores de redes sociais, num mecanismo de recompensa muito semelhante ao de outras drogas de consumo) ou mesmo como um mecanismo de auto-regulação, em que o telemóvel, através dos chats e mensagens, permite manter a mãe (ou o pai) no mundo dos seus amigos, ventilando as suas angústias e combatendo a solidão.

Assim digo, quem nunca pecou que atire a primeira pedra!

O que é que podemos fazer?

Podemos ser racionais e determinar um horário diário sem interferência da tecnologia - como recomenda a Academia Americana de Pediatria - sendo que idealmente os telemóveis devem ser silenciados a partir do momento em que se entra em casa (difícil, bem sei...) ou começar por fazer pequenas concessões, como as horas das refeições familiares, com os telemóveis fora da mesa.

Podemos usar a tecnologia contra ela própria (gosto particularmente disto) através de algumas aplicações que servem para monitorizar o nosso tempo online. Existem inúmeras a FOREST, que é tipo um tamagoshi que premeia o nosso tempo fora do telemóvel, aplicação MOMENT, que nos faz o retrato do nosso perfil de utilizador e envia avisos se estamos a ultrapassar os limites que nos impusemos a nós próprios ou a aplicação STAY FOCUSED que bloqueia o acesso a todas as apps durante períodos de 15, 30 ou 60 minutos. Isto é particularmente favorável, porque, se cumprimos a indicação, recebemos mensagens de parabéns e tudo...e nisso, minhas senhoras e meus senhores, o nossos cérebro gosta mesmo de ser condicionado!




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